A obra de José Brito inscreve-se no campo da abstração gestual e matérica, afirmando a pintura como lugar de experiência física, temporal e simbólica. Distanciando-se de qualquer intenção representacional, a tela constrói-se como um campo de tensão onde o gesto, a matéria e o tempo se tornam elementos estruturantes do discurso pictórico.
Dominada por uma superfície escura e compacta, a obra convoca o preto enquanto campo ativo, próximo daquilo que Gilles Deleuze descreve como um campo de forças, mais do que como um simples valor cromático. Longe de funcionar como fundo neutro, o negro absorve a luz, concentra a matéria e impõe uma experiência de recolhimento, remetendo para uma dimensão existencial da pintura. Esta abordagem aproxima-se das práticas do informalismo europeu, nomeadamente da valorização da superfície enquanto espaço de acumulação, desgaste e memória, tal como se observa em artistas como Jean Fautrier, Jean Dubuffet ou Antoni Tàpies.
As incisões verticais que atravessam a composição resultam de processos de raspagem, sobreposição e erosão da matéria pictórica. Estas marcas funcionam como vestígios ou restos de forma, situando-se num território ambíguo entre presença e ausência. Tal ambiguidade convoca o pensamento de Georges Didi-Huberman, para quem a imagem não se oferece como totalidade legível, mas como fragmento, sintoma ou sobrevivência. A pintura de José Brito não representa um objeto exterior: ela inscreve a memória do gesto e torna visível o seu próprio processo de construção e apagamento.
A gestualidade presente na obra, embora evidente, revela-se contida e controlada, afastando-se do dramatismo imediato associado a certas vertentes do expressionismo abstrato norte-americano. Aqui, a intensidade constrói-se pela densidade da matéria e pela persistência do gesto, mais do que pela explosão expressiva. Neste sentido, a obra aproxima-se de uma conceção fenomenológica da pintura, em consonância com o pensamento de Maurice Merleau-Ponty, onde o corpo do artista se inscreve na obra e a superfície pictórica se afirma como espaço de experiência sensível.
Os raros apontamentos cromáticos — vermelhos e azuis discretos — surgem como sinais residuais que interrompem a homogeneidade do campo escuro. Esses fragmentos cromáticos funcionam como tensões visuais e simbólicas, impedindo a leitura da pintura como espaço fechado ou definitivo, e introduzindo uma dimensão de resistência ao apagamento total.
Inserida na fase madura da produção de José Brito, esta obra exemplifica uma pintura de confronto, onde a abstração não se configura como evasão formal, mas como exercício crítico e existencial. Ao convocar o observador para uma experiência contemplativa e silenciosa, a obra propõe um espaço onde matéria, corpo e memória se entrelaçam, afirmando a pintura como lugar de persistência e questionamento num mundo saturado de imagens imediatas.
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A obra de José Brito inscreve-se no campo da abstração gestual e matérica, afirmando a pintura como lugar de experiência física, temporal e simbólica. Distanciando-se de qualquer intenção representacional, a tela constrói-se como um campo de tensão onde o gesto, a matéria e o tempo se tornam elementos estruturantes do discurso pictórico.
Dominada por uma superfície escura e compacta, a obra convoca o preto enquanto campo ativo, próximo daquilo que Gilles Deleuze descreve como um campo de forças, mais do que como um simples valor cromático. Longe de funcionar como fundo neutro, o negro absorve a luz, concentra a matéria e impõe uma experiência de recolhimento, remetendo para uma dimensão existencial da pintura. Esta abordagem aproxima-se das práticas do informalismo europeu, nomeadamente da valorização da superfície enquanto espaço de acumulação, desgaste e memória, tal como se observa em artistas como Jean Fautrier, Jean Dubuffet ou Antoni Tàpies.
As incisões verticais que atravessam a composição resultam de processos de raspagem, sobreposição e erosão da matéria pictórica. Estas marcas funcionam como vestígios ou restos de forma, situando-se num território ambíguo entre presença e ausência. Tal ambiguidade convoca o pensamento de Georges Didi-Huberman, para quem a imagem não se oferece como totalidade legível, mas como fragmento, sintoma ou sobrevivência. A pintura de José Brito não representa um objeto exterior: ela inscreve a memória do gesto e torna visível o seu próprio processo de construção e apagamento.
A gestualidade presente na obra, embora evidente, revela-se contida e controlada, afastando-se do dramatismo imediato associado a certas vertentes do expressionismo abstrato norte-americano. Aqui, a intensidade constrói-se pela densidade da matéria e pela persistência do gesto, mais do que pela explosão expressiva. Neste sentido, a obra aproxima-se de uma conceção fenomenológica da pintura, em consonância com o pensamento de Maurice Merleau-Ponty, onde o corpo do artista se inscreve na obra e a superfície pictórica se afirma como espaço de experiência sensível.
Os raros apontamentos cromáticos — vermelhos e azuis discretos — surgem como sinais residuais que interrompem a homogeneidade do campo escuro. Esses fragmentos cromáticos funcionam como tensões visuais e simbólicas, impedindo a leitura da pintura como espaço fechado ou definitivo, e introduzindo uma dimensão de resistência ao apagamento total.
Inserida na fase madura da produção de José Brito, esta obra exemplifica uma pintura de confronto, onde a abstração não se configura como evasão formal, mas como exercício crítico e existencial. Ao convocar o observador para uma experiência contemplativa e silenciosa, a obra propõe um espaço onde matéria, corpo e memória se entrelaçam, afirmando a pintura como lugar de persistência e questionamento num mundo saturado de imagens imediatas.
https://fundacionandante.org/artistas/jose-brito/
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