segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

                                  José Brito, técnica mista sobre tela,157 x 104 cm, 2025



2 comentários:

José Brito disse...

A pintura como campo de apagamento
Esta pintura não começa com uma imagem. Começa com a necessidade de a impedir.
O processo não se organiza em função de uma composição prévia, mas de uma sequência de decisões que interrompem continuamente aquilo que tende a formar-se. Cada camada introduzida não resolve a anterior — desestabiliza-a. A superfície constrói-se assim por acumulação de desvios, onde o gesto não afirma, mas corrige, corta, reorienta.
O preto surge como elemento dominante, mas não enquanto fundo ou estrutura. Funciona como operação. Ao ser aplicado, não cobre simplesmente o que existia: altera a sua condição. O que estava antes deixa de poder regressar como imagem legível. Permanece, mas deslocado, fragmentado, parcialmente inacessível. O apagamento não elimina — transforma.
Este procedimento aproxima-se daquilo que Gilles Deleuze descreve como diagrama: um momento em que a pintura entra em desorganização para escapar à repetição do já conhecido. O gesto, neste contexto, não é expressão subjetiva, mas mecanismo de perturbação. Introduz uma catástrofe controlada que impede a estabilização prematura da imagem.
No entanto, essa desorganização não conduz ao caos indiferenciado. A pintura mantém uma estrutura latente, visível na organização em faixas horizontais que atravessam a superfície. Estas zonas funcionam como campos de tensão diferenciados: áreas de maior densidade opaca coexistem com zonas onde o gesto se torna mais fluido, mais exposto. Entre elas, surgem interrupções — cortes que impedem a continuidade do olhar.
As áreas cromáticas — verdes, violetas, rosas — não operam como elementos compositivos no sentido clássico. Não equilibram, não harmonizam. São restos. Fragmentos de estados anteriores que não foram completamente absorvidos pelas camadas subsequentes. A sua presença introduz uma temporalidade interna na pintura: aquilo que se vê pertence a momentos diferentes do processo, que permanecem ativos na superfície.

José Brito disse...

Neste sentido, a pintura aproxima-se da noção de sobrevivência formulada por Georges Didi-Huberman. O que persiste não é uma imagem intacta, mas a marca da sua transformação. Cada vestígio cromático indica não o que foi, mas o que resiste a desaparecer completamente. A superfície torna-se, assim, um espaço onde diferentes tempos colidem sem se resolverem.
Em determinados pontos, a pintura sugere a possibilidade de figura. Certas massas escuras organizam-se de forma a evocar corpos ou silhuetas. No entanto, essa leitura nunca se fixa. A figura não é construída — é insinuada e imediatamente comprometida. Qualquer tentativa de reconhecimento é interrompida por novas camadas, novos gestos, novos apagamentos.
Não se trata de uma oscilação entre abstração e figuração. Essa distinção deixa de ser operativa aqui. O que está em causa é a recusa de permitir que a imagem se estabilize numa dessas categorias. A pintura mantém-se num estado de suspensão, onde a forma emerge apenas enquanto possibilidade transitória.
O gesto desempenha um papel central neste processo, mas não enquanto manifestação expressiva direta. Cada marca introduzida é simultaneamente afirmada e negada por intervenções subsequentes. Há uma insistência em não deixar que o gesto se torne definitivo. O que poderia fixar-se é continuamente reaberto.
Deste modo, a pintura não evolui no sentido de uma resolução, mas de uma intensificação do conflito interno. As diferentes camadas não convergem — acumulam tensão. O resultado não é uma imagem estabilizada, mas um campo onde múltiplas operações permanecem visíveis, ainda ativas.
A pintura não representa ruína. Produz ruína como condição. Não apresenta uma imagem acabada, mas expõe o processo pelo qual qualquer imagem se torna instável, vulnerável à sua própria transformação.
O que se oferece ao olhar não é um objeto, mas um acontecimento. Ver esta pintura implica lidar com aquilo que escapa à fixação: com o que aparece apenas para desaparecer, com o que resiste sem nunca se afirmar completamente.
É nesse intervalo — entre emergência e apagamento — que a pintura se constitui.
Lisboa, 23/03/2026
José Brito