segunda-feira, 18 de abril de 2022

José Brito, 2010, Tudo o que não se fixa, técnica mista sobre tela, 60 x 70 cm






1 comentário:

José Brito disse...

Tudo o que não se fixa

Passei muitos anos
a tentar guardar.

Imagens.

Palavras.

Lugares.

Rostos.

Momentos.

Pensava que a memória
era uma forma de permanência.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Talvez a memória
seja apenas outra maneira de perder.

O Basófia ensinou-me isso cedo.

No inverno era corrente.

No verão era sombra.

Eu voltava ao mesmo lugar.

Mas a água nunca era a mesma.

Nem o olhar.

Nem o tempo.

Talvez por isso me tenha aproximado da pintura.

Porque a pintura também sabe
que nada permanece intacto.

Mesmo quando a tinta seca.

Mesmo quando a tela termina.

Mesmo quando a obra encontra um nome.

Há sempre qualquer coisa
que continua a mover-se.

Uma cor.

Uma lembrança.

Uma ferida.

Um afeto.

Uma ausência.

Tudo aquilo que julgamos possuir

acaba por seguir o seu próprio caminho.

As imagens fazem o mesmo.

Entram na pintura.

Permanecem durante algum tempo.

Depois começam lentamente
a afastar-se de si próprias.

Transformam-se.

Ganham outras relações.

Outras leituras.

Outros silêncios.

Talvez seja isso
que procuro quando trabalho.

Não aquilo que permanece.

Mas aquilo que insiste em escapar.

Não aquilo que se fixa.

Mas aquilo que continua a deslocar-se.

Lembro-me das casas antigas da aldeia.

As paredes permanecem.

As pedras permanecem.

Mas a vida que as habitou
já seguiu adiante.

E, no entanto,
continua ali.

De outra forma.

Como uma presença difícil de nomear.

A pintura parece-se um pouco com isso.

Um lugar onde as coisas permanecem

sem nunca ficarem completamente imóveis.

Um lugar onde o tempo continua a trabalhar.

Um lugar onde a perda
não significa desaparecimento.

Talvez tudo o que importa
partilhe essa condição.

A amizade.

O amor.

A infância.

A paisagem.

A memória.

A pintura.

Nenhuma dessas coisas
aceita permanecer exatamente igual.

E talvez seja por isso
que continuam vivas.

Hoje não procuro fixar.

Procuro acompanhar.

Observar.

Escutar.

Aceitar o movimento.

Porque aquilo que verdadeiramente importa

não permanece.

Mas também não desaparece.

Habita esse intervalo.

Esse lugar instável

onde tudo continua a acontecer

sem nunca se deixar possuir completamente.