Operação cirúrgicaDurante algum temponão pintei.Não por decisão.Não por cansaço.Não por dúvida.O corpo decidiu antes de mim.E o atelier ficou em silêncio.No início pensei que a ausênciaseria apenas uma pausa.Algumas semanas.Talvez alguns meses.Mas o tempo começou a acumular-sede outra maneira.Os pincéis ficaram onde estavam.As telas também.A luz continuava a entrar pela janela.Mas já não encontrava ninguém.Foi então que percebique a pintura não estava apenas nas mãos.Estava também no hábito.Na repetição.Na espera.Na possibilidade de regressar todos os diasao mesmo lugar.Quando isso desaparecedescobrimos o quanto dependemosdas coisas mais simples.Entrar.Olhar.Misturar uma cor.Afastar uma tela.Ficar em silêncio.A cirurgia fechou uma ferida.Mas abriu outra.Uma ferida sem sangue.Uma ferida feita de tempo.Quando voltei ao ateliernão procurei recuperar nada.Sabia que não era possível.O que tinha sido interrompidonão podia continuar do mesmo lugar.Os rasgos apareceram mais tarde.Longos.Visíveis.Irreversíveis.Não eram a imagem da cirurgia.Nem a sua memória.Eram a marca de uma passagem.O registo de uma fratura.A prova de que alguma coisatinha acontecido.Hoje olho para essa pinturae vejo menos a dordo que a vulnerabilidade.Vejo um corpo.Vejo uma tela.Vejo duas superfícies marcadaspela mesma pergunta.O que acontecequando aquilo que nos sustentaé interrompido?Talvez a pintura tenha começado aí.Não quando peguei novamente no pincel.Mas quando percebique a continuidade era uma ilusão.Que tudo pode parar.Que tudo pode mudar.E que mesmo assimalguma coisa continua.Não intacta.Não curada.Não resolvida.Mas viva.Como uma cicatriz.Como um rio no inverno.Como uma tela que aceitaguardar a marca do cortesem nunca a esconder.
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1 comentário:
Operação cirúrgica
Durante algum tempo
não pintei.
Não por decisão.
Não por cansaço.
Não por dúvida.
O corpo decidiu antes de mim.
E o atelier ficou em silêncio.
No início pensei que a ausência
seria apenas uma pausa.
Algumas semanas.
Talvez alguns meses.
Mas o tempo começou a acumular-se
de outra maneira.
Os pincéis ficaram onde estavam.
As telas também.
A luz continuava a entrar pela janela.
Mas já não encontrava ninguém.
Foi então que percebi
que a pintura não estava apenas nas mãos.
Estava também no hábito.
Na repetição.
Na espera.
Na possibilidade de regressar todos os dias
ao mesmo lugar.
Quando isso desaparece
descobrimos o quanto dependemos
das coisas mais simples.
Entrar.
Olhar.
Misturar uma cor.
Afastar uma tela.
Ficar em silêncio.
A cirurgia fechou uma ferida.
Mas abriu outra.
Uma ferida sem sangue.
Uma ferida feita de tempo.
Quando voltei ao atelier
não procurei recuperar nada.
Sabia que não era possível.
O que tinha sido interrompido
não podia continuar do mesmo lugar.
Os rasgos apareceram mais tarde.
Longos.
Visíveis.
Irreversíveis.
Não eram a imagem da cirurgia.
Nem a sua memória.
Eram a marca de uma passagem.
O registo de uma fratura.
A prova de que alguma coisa
tinha acontecido.
Hoje olho para essa pintura
e vejo menos a dor
do que a vulnerabilidade.
Vejo um corpo.
Vejo uma tela.
Vejo duas superfícies marcadas
pela mesma pergunta.
O que acontece
quando aquilo que nos sustenta
é interrompido?
Talvez a pintura tenha começado aí.
Não quando peguei novamente no pincel.
Mas quando percebi
que a continuidade era uma ilusão.
Que tudo pode parar.
Que tudo pode mudar.
E que mesmo assim
alguma coisa continua.
Não intacta.
Não curada.
Não resolvida.
Mas viva.
Como uma cicatriz.
Como um rio no inverno.
Como uma tela que aceita
guardar a marca do corte
sem nunca a esconder.
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