sexta-feira, 19 de abril de 2024

                    José Brito, 2016, Movimento sem conclusão, técnica mista sobre tela, 65 x 81 cm


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José Brito disse...

Movimento sem conclusão

José Brito, 2016, técnica mista sobre tela, 65 × 81 cm

Em Movimento sem conclusão, a imagem parece estar permanentemente a acontecer sem chegar a fixar-se. A pintura não representa um movimento: é ela própria um movimento interrompido, um processo contínuo de aparecimento e desaparecimento, construção e apagamento.

A superfície é dominada pelo negro, mas esse negro não funciona como fundo nem como simples ausência. É matéria, espessura, ocultação. Sob ele, ou através dele, sobrevivem fragmentos de imagens, letras, rostos, paisagens, arquitecturas, texturas e vestígios de cor. A colagem não procura, contudo, reunir esses fragmentos numa unidade. Pelo contrário, mantém-nos numa condição de tensão, como restos de uma imagem que nunca chega a completar-se.

O rosto que emerge no canto superior esquerdo é talvez uma das presenças mais inquietantes da obra. Não aparece como retrato, mas como vestígio: aquilo que permaneceu depois de a imagem ter sido parcialmente apagada. A figura não é tanto aquilo que a pintura quer mostrar como aquilo que não conseguiu apagar completamente.

Também a cor surge como sobrevivência. Pequenos núcleos de verde, vermelho, azul ou branco irrompem da densidade escura da superfície, não como elementos decorativos, mas como acontecimentos. São sinais de emergência dentro de uma matéria que parece continuamente absorver aquilo que nela aparece.

O olhar do espectador é, por isso, obrigado a permanecer. Descobre um fragmento, perde-o; reconhece uma forma, volta a duvidar dela; aproxima-se de uma possível imagem e vê-a novamente dissolver-se na matéria. Ver a pintura é construir hipóteses e perdê-las.

É nesse movimento que o título ganha toda a sua força. Não há conclusão porque a pintura recusa oferecer ao olhar uma síntese definitiva. O fragmento não recompõe uma totalidade perdida; permanece como rasto de algo que continua a acontecer.

Em Movimento sem conclusão, a pintura não desaparece para dar lugar ao informe. Desaparece para continuar a acontecer. O negro não encerra a imagem: torna visível a impossibilidade do seu encerramento.

Talvez seja justamente aí que a pintura encontre a sua possibilidade de permanência: mover-se porque não consegue concluir a imagem.
José Brito