segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

                                   José Brito, 2023, A imagem como passagem, técnica mista sobre tela,152 x 120 cm



1 comentário:

José Brito disse...

A imagem como passagem

Durante muito tempo

pensei na imagem como chegada.

Algo que se forma.

Algo que se fixa.

Algo que se vê.

Hoje já não a vejo assim.

A imagem não chega.

A imagem atravessa.

Não é um lugar onde se permanece.

É um lugar onde se passa.

Entre o que ainda não foi visto

e o que já começa a desaparecer.

A imagem não pertence ao início.

Nem ao fim.

Pertence ao intervalo.

Ao movimento entre ambos.

Quando trabalho uma superfície

nunca sinto que estou a construir uma imagem.

Sinto que estou a acompanhar algo

que já começou antes de mim.

E que continuará depois.

A imagem não é controlável.

É transitória.

Mesmo quando parece estável

continua a deslocar-se.

Talvez seja isso que a torna tão instável na pintura.

Ela nunca está exatamente onde pensamos.

Está sempre ligeiramente a mais

ou ligeiramente a menos.

Como o Basófia.

Que nunca é o mesmo rio.

Mesmo quando parece parado.

Talvez todas as imagens

se comportem assim.

Não como objetos.

Mas como acontecimentos.

Coisas que passam

através do olhar

sem nunca se deixarem fixar completamente.

A pintura não cria a imagem.

A pintura acompanha a sua passagem.

E nesse acompanhamento

algo se perde.

E algo se mantém.

Mas nunca ao mesmo tempo.