A imagem como passagemDurante muito tempopensei na imagem como chegada.Algo que se forma.Algo que se fixa.Algo que se vê.Hoje já não a vejo assim.A imagem não chega.A imagem atravessa.Não é um lugar onde se permanece.É um lugar onde se passa.Entre o que ainda não foi vistoe o que já começa a desaparecer.A imagem não pertence ao início.Nem ao fim.Pertence ao intervalo.Ao movimento entre ambos.Quando trabalho uma superfícienunca sinto que estou a construir uma imagem.Sinto que estou a acompanhar algoque já começou antes de mim.E que continuará depois.A imagem não é controlável.É transitória.Mesmo quando parece estávelcontinua a deslocar-se.Talvez seja isso que a torna tão instável na pintura.Ela nunca está exatamente onde pensamos.Está sempre ligeiramente a maisou ligeiramente a menos.Como o Basófia.Que nunca é o mesmo rio.Mesmo quando parece parado.Talvez todas as imagensse comportem assim.Não como objetos.Mas como acontecimentos.Coisas que passamatravés do olharsem nunca se deixarem fixar completamente.A pintura não cria a imagem.A pintura acompanha a sua passagem.E nesse acompanhamentoalgo se perde.E algo se mantém.Mas nunca ao mesmo tempo.
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1 comentário:
A imagem como passagem
Durante muito tempo
pensei na imagem como chegada.
Algo que se forma.
Algo que se fixa.
Algo que se vê.
Hoje já não a vejo assim.
A imagem não chega.
A imagem atravessa.
Não é um lugar onde se permanece.
É um lugar onde se passa.
Entre o que ainda não foi visto
e o que já começa a desaparecer.
A imagem não pertence ao início.
Nem ao fim.
Pertence ao intervalo.
Ao movimento entre ambos.
Quando trabalho uma superfície
nunca sinto que estou a construir uma imagem.
Sinto que estou a acompanhar algo
que já começou antes de mim.
E que continuará depois.
A imagem não é controlável.
É transitória.
Mesmo quando parece estável
continua a deslocar-se.
Talvez seja isso que a torna tão instável na pintura.
Ela nunca está exatamente onde pensamos.
Está sempre ligeiramente a mais
ou ligeiramente a menos.
Como o Basófia.
Que nunca é o mesmo rio.
Mesmo quando parece parado.
Talvez todas as imagens
se comportem assim.
Não como objetos.
Mas como acontecimentos.
Coisas que passam
através do olhar
sem nunca se deixarem fixar completamente.
A pintura não cria a imagem.
A pintura acompanha a sua passagem.
E nesse acompanhamento
algo se perde.
E algo se mantém.
Mas nunca ao mesmo tempo.
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